sábado, 1 de dezembro de 2012

Tradição ameaçada (a cultura do piano) - Ana Clara Brant‏

Com poucos interessados em estudar o instrumento, Brasil deixa de ser o país do piano. Concurso internacional realizado no Rio registrou poucos inscritos locais e apenas um chegou à etapa final 

Ana Clara Brant
Estado de Minas: 01/12/2012 
O escritor Mário de Andrade costumava implicar com a “pianolatria brasileira”, ou seja, o interesse desmedido pelo piano no começo do século 20. Um país que já formou gente do gabarito de Chiquinha Gonzaga, Guiomar Novaes, Magdalena Tagliaferro, Nelson Freire, Arthur Moreira Lima e Arnaldo Cohen e sempre foi apaixonado pelo instrumento parece sentir que sua dominância está diminuindo. Pelo menos é o que percebem alguns especialistas no assunto. “Estamos perdendo a cultura do piano. Toda casa tinha um e sempre alguém estudando. Somos uma nação extremamente musical, mas não desenvolvemos essa cultura da música, especialmente a clássica. Temos grandes talentos, mas isso não é potencializado”, lamenta a pianista Lilian Barretto, diretora da 3ª edição do Concurso Internacional BNDES de Piano, que está sendo realizado no Rio de Janeiro.

Os números do evento reforçam a tese de Lilian. Dos 91 inscritos, apenas sete são brasileiros, todos residentes no exterior. Na seleção final, com 18 pianistas de 12 países, o Brasil tem apenas um representante, que também não vive por aqui. A coordenadora acredita que esses dados apontam uma necessidade de investimento no estudo do piano nas escolas de música e conservatórios, além da preparação dos professores. “O grande problema é que todos os finalistas daqui moram no exterior. Temos que equipar nossas escolas, que, muitas vezes, têm pianos muito antigos, desafinados. Mas o problema da infraestrutura não está restrito à música. É um problema do Brasil”, desabafa Lilian. 

E a pianista ainda faz um alerta: “É preciso investir no solista também, ter figuras de proa, como havia no passado, para transmitir seus ensinamentos. A formação de um solista é a mesma de um atleta. Você pode treinar para disputar uma Olimpíada ou para dar aulas de educação física. No caso do pianista, ele pode ser um professor, dar aulas ou ser um artista de ponta e apresentar concertos no mundo inteiro. Mas é necessário oferecer as duas opções. Quem tem potencial artístico no Brasil acaba procurando uma instituição estrangeira para se aprimorar e buscar bolsas de estudos. Aqui não tem como fazer isso.”

Mas será mesmo que o piano anda em crise? Para a professora da Escola de Música da UFMG e coordenadora do vestibular de música da universidade Margarida Maria Borghoff, há alguns anos praticamente só existia o piano e hoje a oferta de instrumentos aumentou. Os números do vestibular apontam essa tendência. De acordo com Margarida, a relação candidato/vaga do piano caiu bastante nos últimos anos e o violão, o canto e a percussão passaram a ser mais procurados. “E ainda tinha essa história de que as mulheres só podiam tocar piano. Hoje elas tocam tudo. O interesse pelo piano foi repartido com outros instrumentos. Além do mais, ele exige muita técnica, dedicação. Tem uma dificuldade e um repertório absurdos”, opina.

Do concerto à terapia


Professora particular há mais de 30 anos, Lenice Cintra indica outros motivos para a perda do espaço do instrumento eternizado por nomes como Chopin e Mozart. A gama de opções e entretenimento que os jovens passaram a ter nos últimos tempos, como redes sociais e jogos eletrônicos, também pode ter contribuído para diminuir o interesse pelo piano. “A gente vive uma cultura em que tudo é para ontem, muito imediatista. Tem mães que querem o filho tocando uma partitura em menos de um mês. Isso não existe. Com o teclado isso é mais fácil. Mas são coisas diferentes. Além disso, o piano é um instrumento caro, nem todo mundo pode ter. Mesmo com a redução do número de alunos, sempre vai ter gente tocando, não só para ser um concertista, mas como terapia ou válvula de escape”, acredita Lenice.

Diretora executiva da Fundação de Educação Artística (FEA), a professora e pianista Berenice Menegale vê com bons olhos esse interesse por outros instrumentos, mas, mesmo assim, considera o piano o instrumento que tem mais adeptos. “Hoje, temos muito mais pessoas estudando música do que há 50 anos e isso é extremamente enriquecedor. Realmente, a predominância do piano no passado era avassaladora, porque toda casa, especialmente as abastadas, tinha um piano que vinha da Europa e passava de mãe para filha. A mulher aprendia muito mais como um dote do que para se dedicar profissionalmente ao instrumento. O objetivo era outro”, analisa. 

De ouvido 


Berenice é um desses exemplos de meninas que sempre conviveram com piano dentro de casa. Como a mãe era pianista, com apenas 3 anos começou a dedilhar e a tocar de ouvido. “Para mim, tocar piano tinha o mesmo prazer que brincar de boneca. E o prazer continua até hoje”, assegura. A menina Mariana Guimarães, de 9 anos, também se viu envolvida com a música bem novinha. Com 5, entrou na FEA para ter aulas de iniciação musical e aos 7 passou a estudar piano e flauta doce. “O som do piano é mais bonito. É também mais difícil, mas gosto mesmo assim. Minha mãe já tocou quando criança e de vez em quando ela pede para eu me apresentar lá em casa para a família e os amigos. Gostaria mesmo de ser uma pianista de verdade”, conta a entusiasmada garota.

Já a estudante Laura da Silveira Pinto, de 17, passou a se dedicar ao instrumento recentemente, mas sempre foi encantada com o piano. A adolescente, que está no 2ª ano do ensino médio, não tem muito tempo para o piano, mas quando senta para dedilhar, encara o exercício como uma terapia. “ É engraçado como as pessoas ficam fascinadas quando escutam a gente tocando ou quando sabem que toco. O piano exerce esse fascínio sobre todo mundo. É bem bacana”, resume.

Saiba mais

Piano


O piano é um instrumento de cordas inventado pelo italiano Bartolomeo Cristofori (1655-1731), no início do século 18, e foi eternizado por grandes compositores como Bach, Mozart, Beethoven e Chopin. O som é produzido por peças feitas em madeira e cobertas por um material (geralmente feltro) macio, os martelos. Essas peças são ativadas por meio de um teclado e tocam nas cordas esticadas e presas numa estrutura rígida de madeira ou metal. As cordas vibram e produzem o som. O instrumento passou por diversas formas e aprimoramentos mecânicos até chegar à versão moderna, que pode ser encontrada em duas variações: piano de cauda e o piano vertical (piano de armário).

CLÁUDIA LAITANO - O marinheiro e o camponês

Zero Hora - 01/12/2012

Durante mais de 30 anos, meu pai trabalhou em uma grande loja de departamentos chamada Hermes Macedo. Se aquele prédio na esquina da Alberto Bins com a Coronel Vicente fosse um reino – e para mim era –, meu pai seria o soberano, e eu sua única princesa.

Loja de departamentos era aquele negócio com a ambição cosmogônica de contemplar todas as necessidades de consumo que um crediário é capaz de abarcar. Na HM, compravam-se calcinhas e geladeiras, bicicletas e relógios, pneus e anáguas, lanchas e todos os seus acessórios, sofás e passadores de cabelo. Como a família real morava em apartamento, a Hermes Macedo era meu parque, minha Disney, meu reino das águas claras.

Ali, eu podia pular em todos os sofás, testar todos os brinquedos e, mais radical de todas as aventuras, subir correndo a escada rolante no sentido contrário. Na Hermes Macedo, iniciei e encerrei minha carreira de modelo infantil cometendo um ousado strip-tease na passarela, sentei no colo do Papai Noel pela primeira e última vez – e chorei, acalentei todas as bonecas, pedalei todas as bicicletas sem nunca sair do lugar.

Tudo porque meu pai trabalhou quase a vida inteira em um único emprego – e para mim, na infância, era como se ele tivesse nascido ali e fosse morrer ali também. (Anos mais tarde, ele acabou morrendo no trabalho, mas não na HM, que já havia falido, mas no escritório onde se empregou para completar a modesta aposentadoria que se pagava aos soberanos das lojas de departamentos naquela época.)

Em um texto clássico sobre a arte de contar histórias, Walter Benjamin divide a habilidade de narrar em dois grandes arquétipos: o do marinheiro e o do camponês. O marinheiro viaja, enfrenta perigos, estende horizontes com o relato de suas aventuras. O camponês é o depositário da tradição, das narrativas que tornam um lugar único em relação a todos os outros. O marinheiro é espaço, o camponês é tempo.

Meu pai foi o camponês urbano que nunca saiu do mesmo lugar. Se tivesse sido um piloto da Varig, um capitão da Guarda Costeira, um mascate de tecidos, é provável que tivesse me ocorrido perguntar mais sobre as coisas que tinha visto, os personagens exóticos, as paisagens distantes.

Hoje me arrependo de não ter usado o tempo que tivemos juntos para perguntar mais sobre a cidade de onde ele nunca saiu, sobre as esquinas que conhecia desde sempre, sobre as pequenas e grandes intrigas daquele reino aparentemente indestrutível que se desfez antes mesmo de eu chegar à vida adulta.

Dizem que os garotos de hoje têm pavor da ideia de trabalhar a vida inteira no mesmo lugar e que a carreira estável não tem o apelo que tinha nos tempos do meu pai. E é verdade. Mas o fato é que a jornada aventurosa do marinheiro sempre foi mais sedutora do que a estabilidade, mesmo quando ser camponês parecia mais sensato.

Eu mesma, se tivessem me perguntado, talvez respondesse que preferiria visitar todas as capitais da Ásia a morar sempre na mesma cidade, fazendo a mesma coisa todos os dias e vendo as semanas virarem meses, e os meses se agruparem em anos.

Não foi bem o que aconteceu. Esta semana, comemorei inacreditáveis 25 anos lavrando metaforicamente o mesmo pedaço de terra, na mesma esquina da Erico com a Ipiranga onde comecei a trabalhar antes mesmo de decidir ser jornalista. Sou, como meu pai, uma camponesa.

O que marinheiros e camponeses acabam percebendo depois de algum tempo é que há sempre algo novo a se descobrir na paisagem de todos os dias, assim como algo que se repete naqueles lugares onde nunca estivemos antes.

A única aventura realmente inesgotável talvez seja aquela de poder fazer o que se gosta. Assim na terra como no mar.

ENTREVISTA/MARCELA SERRANO » Vozes da América - Carlos Herculano Lopes‏


Romancista chilena lança livro em que 10 mulheres confessam suas verdades mais íntimas 

Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas: 01/12/2012 

Uma das escritoras mais aclamadas da literatura chilena atual, com ecos na Europa e em todo o subcontinente latino-americano, Marcela Serrano tem o poder de surpreender seus leitores em cada livro, como ocorreu com o romance Dez mulheres, que acaba de ser lançado no Brasil. Com toda a experiência e talento literário adquirido ao longo dos anos, ela narra, cada uma no seu tempo, a história de nove mulheres muito diferentes entre si, que se reúnem em torno de uma terapeuta para falar de pequenas conquistas, anseios e dramas. A décima personagem da história – e última a falar – é justamente a terapeuta, que se chama Natasha, e que também, como as outras mulheres, acaba abrindo seu coração. Nascida em Santiago, onde se formou em belas-artes pela Universidade Católica, exilada política na Itália na década de 1970, Marcela Serrano afirma que, embora tenha se inspirado em mulheres chilenas para criar as histórias, toda a trama do livro é ficcional. “Estaria mentindo se dissesse que uma só dessas mulheres existe na realidade”, disse a romancista em entrevista ao Pensar. 

Como foi a experiência de escrever Dez mulheres?

Foi muito rica, mas me deixou extremamente exausta. De todos os meus livros, foi o que mais demorei para escrever. Ter de trabalhar a voz de cada uma das mulheres me obrigou a concentrar-me, literalmente, 10 vezes mais do que quando a narradora é uma só. É que cada uma daquelas mulheres, devido à idade, profissão, condição social etc., possuía uma linguagem e uma linha de pensamento diferente. Demorava a passar de uma voz para a outra. Foi um tempo meio esquizofrênico esse que passei escrevendo o livro. Mas acho que valeu muito a pena.

Você diria que as histórias contadas retratam a realidade das mulheres chilenas de hoje?
Creio que sim, pelo menos foi nas mulheres chilenas que me baseei para contar as histórias, embora elas sejam pura ficção. Mas deduzo, tirando como base minhas viagens pelo mundo e as reações que as traduções do livro têm provocado, que essa é uma situação muito mais universal que regional. Confesso que poucas vezes usei mais a minha imaginação do que nessa novela. Para mim foi fascinante inventar algumas histórias, mesmo tendo, às vezes, recorrido a imagens conhecidas e a certos giros da linguagem das mulheres com as quais conversei, ou a alguma piada que uma ou outra acabou me contando. 

Como é ser mulher na América Latina de hoje, especialmente no Chile?
É uma coisa ambígua. As coisas, na realidade, avançaram bem menos do que parece. No caso chileno, tivemos uma presidente da República, Michele Bachelet, mas seguimos tendo uma sub-representação no parlamento ou nas empresas privadas, para não mencionar outros poderes fatídicos, como as Forças Armadas ou as igrejas. Temos avançado em muitos aspectos, é verdade, mas ainda não alcançamos a igualdade que almejamos. As mulheres deste continente tendem a ser muito fortes. Mas ainda somos repúblicas jovens e, às vezes, não nos damos conta da fragilidade que isso significa. Em muitos casos, somos melhores do que os homens e pagamos um preço bem caro por isso. 

Com a derrubada do presidente Salvador Allende, em 1973, você e milhares de compatriotas se viram obrigados a deixar o Chile. Como foi sua experiência?
Olhando para trás, compreendo que aquela época foi melhor do que costumava pensar. A Itália, para onde fui, foi um bálsamo para as feridas, com sua profunda solidariedade e compromisso. Nós nos encontrávamos com diversos outros latino-americanos, cada um com a sua ditadura nas costas e uma história para contar. No início não foi fácil, eu era jovem e muito apegada à minha família e ao meu país, e custei para me acostumar com aquela nova realidade e com a precária condição afetiva e econômica. Se o exílio é uma coisa dramática, por outro lado nos faz ficar ainda mais apegados à nossa terra, e foi isso que aconteceu comigo. De uns tempos para cá, voltei a viver no Chile, mas passei muitos anos também no México e na Argentina. Atualmente, viajo bastante, pois minha curiosidade em conhecer o mundo é uma coisa inesgotável. De Santiago, particularmente, não gosto muito. Mas tenho uma casa no campo, com muitas árvores, livros, cachorros, gatos e galinhas. Quando estou lá, sou uma mulher muito feliz.

Como está o Chile atualmente? O país já acertou as contas com o seu passado recente?

Sim, temos acertado muitas contas. O chefe de polícia de Pinochet, por exemplo, está atrás das grades já há algum tempo, com quase todos os seus asseclas. Ainda estão sendo abertos processos de casos antigos, a Justiça não tem descansado. Hoje, os direitos humanos têm voz, como nunca houve antes. Estamos transformando o Chile em um país verdadeiramente democrático. O problema é que, no campo econômico, ainda estamos expostos a um capitalismo selvagem que herdamos da ditadura. Atualmente, o país está sendo governado pela direita, o que faz acentuar ainda mais os níveis de desigualdade. Por outro lado, no cotidiano, a vida corre perfeitamente bem, tudo funciona de forma bastante eficiente. Mas, por debaixo do pano, ainda existe raiva, muita raiva. 

E a literatura, como foi que ela entrou na sua vida? Como é seu processo criativo?
A literatura entrou na minha vida de forma natural. Meus pais escreviam; ele fazia ensaios e minha mãe novelas. Os lápis, as máquinas de escrever e os livros eram a minha paisagem de infância. Somos cinco irmãs e todas escrevem: uma é historiadora, outra jornalista, outra socióloga... Parece que a escrita está no nosso sangue. No meu caso, demorei muito a reconhecer que escrever era a minha verdadeira vocação – suponho que não queria imitar a minha mãe. Quanto ao meu processo criativo, esse não tem nada de diferente: observo, contemplo e leio, leio muito. Anoto frases e palavras em qualquer pedaço de papel que esteja à mão, mas quase sempre perco. Quando uma imagem se torna obsessiva, compreendo que é o germe de uma história. Então me entrego e começo a escrevê-la, sem muita ideia preconcebida sobre onde a coisa vai dar. É fascinante deixar que uma história siga seu próprio caminho e não ao contrário, como costuma acontecer.

Tem algum ritual para escrever?

Meus rituais são ínfimos: preciso de um lugar em que esteja sozinha, água e café, além de muitos cigarros. Mas, como sou mulher, estou sempre sendo interrompida, o que não se passa com meus colegas escritores, porque sempre existe uma mulher que fecha as portas para eles. Já disse mil vezes que minha grande necessidade é ter uma esposa! Trabalho mais à noite, nunca começo a escrever de manhã, mas, quando estou na metade de algum livro, aí escrevo a qualquer hora, muitas horas seguidas, sem descanso. No dia seguinte, antes de começar uma nova jornada, corrijo o trabalho da noite anterior. E o que nunca me esqueço, depois de ter tido dois computadores roubados, é de gravar o que escrevo. Levo o pen drive para a cama, durmo com ele ao meu lado. 

Nas suas viagens ao Brasil teve contato com alguns dos nossos escritores?
Já estive várias vezes por aí, de férias, em encontros feministas, giros culturais a convite dos governos anteriores, mas nunca para lançar um livro. Sigo a realidade política do Brasil, mas não a literária. A língua nos separa muito. É como se o Brasil não fosse uma peça-chave do subcontinente latino-americano. Não conheço os jovens valores da literatura brasileira, mas os velhos estandartes, como Jorge Amado, Rubem Fonseca e Nélida Piñon. Mas meu grande amor é Clarice Lispector. Sei que ela não nasceu no Brasil, e sim na Ucrânia. Mas, afinal de contas, foi aí que se criou e viveu. Ela é uma das minhas autoras prediletas.

A literatura pode significar uma espécie de redenção?
Darei a resposta de forma muito pessoal: não imagino outra forma de redenção possível que não seja com a escrita. Sem ela, minha mente seria caótica e eu perderia o meu caminho, além de uma fonte profunda de prazer. Rilke dizia que podia deixar de escrever. Eu faria isso se pudesse. Mas não posso. Clarice dizia: “Escrever é também bendizer uma vida que não foi bendita”.

Dez mulheres
• De Marcela Serrano, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman
• Editora Alfaguara, 266 páginas, R$ 39,90

Somos modernos? - João Paulo‏


Somos modernos?

 Reedição completa do suplemento mineiro leite criôlo, que circulou em 1929, destaca aspectos históricos e ideológicos do modernismo no Brasil e em Minas 


João Paulo
Estado de Minas: 01/12/2012 

Fac-símile da capa do primeiro número de leite criôlo, que, em seguida, seria publicado nas páginas do Estado de Minas
O modernismo brasileiro, para o leitor de hoje, é um tempo de conquistas e heroísmo. Como toda avaliação feita sobre o passado, esse juízo talvez diga mais do nosso tempo do que propriamente da realidade do movimento estético, político e ideológico que tomou conta da inteligência brasileira nos anos 1920. Estamos sempre à procura de genealogias que expliquem nossos acertos e mitiguem nossos erros. Com suas demasias, o modernismo se presta bem às duas tarefas.
A identificação do moderno com a crítica ao antigo, com a abertura de novas avenidas artísticas, mais livres e desimpedidas, com a renovação política em favor de bandeiras universalistas e, sobretudo, com o rompimento de tudo que nos atava ao ultrapassado, ao bacharelesco, ao conservador, ao tacanho e ao preconceituoso, tudo isso faz parte de nossa memória inventada. O modernismo apascenta os pecados de origem, já que, por causa dele, de uma hora para outra nos tornamos todos modernos. Antigos eram os outros.

A reedição do periódico leite criôlo, que circulou em Belo Horizonte em 1929, em versão fac-similar de todos os 19 números do suplemento, é uma oportunidade para não apenas conhecer um trabalho que marcou época – embora seja pouco conhecido fora do círculo dos especialistas – como também para revelar questões que ficaram submersas em razão desse otimismo ideológico da memória. Mesmo nos momentos mais produtivos do ideário modernista, não estiveram ausentes disputas ferrenhas (e vaidosas) entre os integrantes do movimento, bem como questões aparentemente superadas, como o racismo.

As revistas eram o instrumento por excelência da circulação de ideias e da produção estética do modernismo. Ao lado das já conhecidas, estudadas e reeditadas publicações como as paulistas Klaxon, Terra Roxa e Outras Terras e Revista de Antropofagia, e as mineiras A Revista e Verde, o periódico leite criôlo mantinha, na forma e no projeto político, semelhanças com suas irmãs. Havia predomínio de pequenos textos, poemas e proposições ideológicas; a forma gráfica fugia sempre que possível (por vezes era amarrada no projeto gráfico do jornal onde se inseriam) do convencional; a direção era coletiva, bem como a abertura de espaço a colaboradores de vários pontos do país. 

A trajetória de leite criôlo teve, no entanto, suas singularidades. O primeiro número, o mais programático, foi editado em formato tabloide, independente, distribuído de graça no dia 13 de maio de 1929, em clara alusão à comemoração do dia a abolição da escravatura. A partir daí, os demais 18 números – entre 2 de junho e 19 de setembro daquele ano – saíram como suplemento literário do Estado de Minas, jornal recém-fundado (em 1928), ocupando espaço que variava de metade a um quarto de página.

Durante todo o tempo, leite criôlo  foi dirigido por João Dornas Filho, Guilhermino César e Achiles Vivacqua e contou com colaborações de nomes como Carlos Drummond de Andrade (com o pseudônimo de Antonio Crispim), Cyro dos Anjos, Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto, Oswaldo Abritta e Newton Braga (irmão de Rubem Braga), entre outros. De fora de Minas, o suplemento publicou textos de Marques Rebelo, Luis da Câmara Cascudo, Raul Bopp (como Jacob Pim-Pim) e Yan de Almeida Prado.

A novidade de leite criôlo não estava, portanto, nem na forma nem nos colaboradores, que podiam ser lidos em outras publicações e revistas da época. Também não se localizava no espírito modernista, de combate ao beletrismo e ao provincianismo, que unia todas as publicações, num espectro que ia do anarquismo de Oswald de Andrade ao nacionalismo reacionário de Plínio Salgado. O que havia de diferente vinha impresso no nome da publicação: o criolismo. E talvez esteja aí a ambiguidade que marcou o suplemento em toda a sua trajetória.

Quando surgiu, leite criôlo já se encontrava num terreno de consolidação do modernismo, que vinha da Semana de Arte Moderna de 1922 e de várias publicações, livros e exposições. Cronologicamente, os responsáveis pelo suplemento faziam parte da segunda geração de escritores modernistas que se reuniam em Belo Horizonte, depois da rapaziada formada por Drummond, João Alphonsus, Emílio Moura, Pedro Nava e Abgar Renault. Reunidas em torno da publicação de A Revista (1925-26), a turma mantinha contato com os modernistas de São Paulo, que estiveram trazendo o germe do movimento para Minas em 1924. 

Os fundadores de leite criôlo não apenas vieram depois, como tiveram certa resistência em aderir ao modernismo. Dois deles, João Dornas e Vivacqua, chegaram a publicar textos que não passariam no critério do futuro suplemento, e Guilhermino César, o mais novo deles, se integra ao modernismo já em 1927. Em matéria de vínculo, leite criôlo estava mais próximo da revista Verde, de Cataguases (editada entre 1927 e 1929), da qual participou Guilhermino César. Ainda no capítulo das afinidades, o criolismo dialogava com a chamada “primeira dentição” da Revista de Antropofagia, editada em São Paulo por Oswald de Andrade, e que ajudou a dar repercussão nacional aos jovens mineiros.

O suplemento não tardaria a se ver em meio à polêmica que dividiu o movimento modernista em São Paulo, separando os projetos de Oswald e Mário de Andrade e gerando um cisma que atravessou o Brasil de norte a sul. Em Minas, a primeira e mais drástica dissidência em relação à antropofagia seria capitaneada por Carlos Drummond de Andrade, que rompe com Oswald em carta de maio de 1929. É nesse contexto que leite criôlo surge. O mais polêmico, contudo, seria sua concepção do papel das diferentes raças na composição da cultura brasileira. Entre o racialismo e o racismo, muitas vezes leite criôlo ficou com os dois.

LEITE CRIÔLO

. Lançamento da edição fac-símile do suplemento literário publicado originalmente em BH em 1929. Segunda-feira, às 19h30, na Academia Mineira de Letras, Rua da Bahia, 1.466, Lourdes

Tristeza, raça e sociedade 


O escritor Guilhermino César, um dos diretores de leite criôlo, morreu em 1995, aos 87 anos
Imagine a mescla de bons exemplos de poesia modernista, olhar melancólico sobre a realidade urbana de Belo Horizonte, reflexões sobre estética moderna e pitadas malcomportadas de política. Com esse receituário, leite criôlo tinha tudo para se comparar com suas irmãs de letra de fôrma daqui e de São Paulo. No entanto, dois elementos parecem ter dado uma dimensão de ambiguidade à publicação: um certo penumbrismo melancólico e derrotista, por um lado; e o tratamento dado à questão racial.

O chamado criolismo, ponto de referência da publicação, era uma mescla dessas duas tendências. De um lado os editores nomeavam como criolismo uma tendência negativa, ligada à preguiça, que precisava ser superada seja pela educação ou por procedimentos eugênicos. Por outro, teve o olhar para a questão negra no Brasil, mas não chegou a dar o salto que seria completado na década seguinte, com a consideração sociológica e política das matrizes de nosso projeto injusto de nação.

Os modernistas mineiros, em alguns momentos, quiseram crer que faziam pelos negros o que os paulistas fizeram pelos índios, em termos de reconhecimento de sua significação na formação do homem brasileiro. Mas assim como eles, na esteira da teoria das três raças tristes de Paulo Prado, eram capazes de enxergar a questão racial, mas não foram astutos para superar suas determinações. As sucessivas referências aos negros em leite criôlo denunciam ao mesmo tempo a atmosfera racialista do período e as observações francamente racistas.

O curioso é que, passados muitos anos, alguns dos colaboradores da publicação ao relembrar o período parecem esquecer suas próprias posições, colocando-se na vanguarda da denúncia de preconceitos, postura que, na realidade, nunca tiveram. Nesse aspecto, o suplemento evocava sua época e seus integrantes – gente vinda de famílias importantes ou que ascenderam pela política ou pela arte.

Os textos do suplemento não tratavam apenas da questão racial, mas o tema toma conta de boa parte da produção do grupo. A ambivalência em torno do criolismo vai emergir de formas variadas, como crítica social (ainda que ingênua), em comentários sobre branqueamento, no tratamento afetivo de personagens como a “mãe preta”, na percepção da questão da afro-descendência da nação brasileira e até num humor malicioso que, por vezes, descamba para o sadismo. 

Edição exemplar 


A coletânea editada pelo Instituto Cultural Amilcar Martins (Icam) permite recuperar essa história sem intermediários, pela leitura dos textos que fizeram parte de todas as edições de leite criôlo. O trabalho não foi fácil. Não havia uma coleção única na qual figurasse, em boas condições, todos os exemplares do suplemento. Por isso foram utilizadas coleções pertencentes a várias instituições, como a Fundação Biblioteca Nacional, Hemeroteca Histórica do Estado de Minas Gerais e Coleção Linhares do Setor de Coleções Especiais da Biblioteca Central da UFMG.

O conhecimento do material editado vai permitir, ainda, nova safra de estudos sobre os primórdios do modernismo em Minas, que vão se somar a trabalhos clássicos, como os de Antônio Sérgio Bueno, Maria Zilda Ferreira Cury, Helena Bomeny, Francisco Iglésias e Humberto Werneck. Nesse grupo, já se pode filiar o pesquisador Miguel Ávila Duarte, autor de um reflexivo estudo crítico sobre leite criôlo que integra a edição. O suplemento já havia sido tema de sua dissertação de mestrado em teoria da literatura na UFMG.

Um dos maiores acertos da edição completa de leite criôlo foi a escolha do sociólogo Fernando Correia Dias para escrever o prefácio da coletânea. Autor de O movimento modernista em Minas –Uma interpretação sociológica, em seu último trabalho Fernando Correia Dias deixou registrado seu estilo, capaz de dar conta da erudição e da interpretação, além de oferecer perfis exemplares dos principais atores do movimento modernista mineiro.

O camaleão (Mick Jagger ) - Ângela Faria‏

Livro do jornalista inglês Philip Norman mostra como Mick Jagger se tornou o vovô mais cultuado da cultura pop 

Ângela Faria
Estado de Minas: 01/12/2012 

Domingo passado, Mick Jagger fez show em Londres para comemorar os 50 anos dos Rolling Stones

Mick Jagger (Companhia das Letras), biografia do astro pop escrita pelo jornalista londrino Philip Norman, traz preciosas dicas para compreender a engrenagem que transformou os Rolling Stones em cinquentenária instituição do rock and roll. Do jovem Mike dos anos 1950 ao sir Mick Jagger de 2012, as 619 páginas são capazes tanto de entreter fãs em busca de “bafões” quanto leitores interessados em refletir sobre a cultura nos séculos 20 e 21.

Cabe ao ex-estudante de economia Mick Jagger boa parcela de responsabilidade no fato de a “firma” seguir lucrando com a inesgotável reciclagem de clássicos de tempos atrás, embora nos anos 1980 ele quase tenha implodido o negócio ao apostar em seus projetos solo. Esse voo particular, além de não decolar, atraiu a ira pública de seu “glimmer twin”, Keith Richards. Jagger também foi a nocaute, literalmente, depois de tomar uns tabefes do sempre cool baterista Charlie Watts.

Na trajetória dos Stones, muita gente beijou o ringue. O sócio-fundador Brian Jones, viciado em drogas, foi encontrado morto depois de ser despedido. O baixista Bill Wyman e o guitarrista Mick Taylor pediram o boné, fartos do papel de coadjuvantes do circo pop. Uma coleção de empresários levou bilhete azul em meio a capciosos contratos, turnês milionárias e prejuízos para a banda. O homem de negócios Mick Jagger mostrou talento nato e aplicação: aprendeu, na marra, a lidar com o capitalismo selvagem.

Philip Norman disseca cada etapa da saga stoneana, inclusive as crises. Evita chafurdar nas fofocas, embora não se furte a brindar o leitor com detalhes do way of life jaggeriano, temperado com drogas, sexo, incontáveis beldades, rock e confusões com a lei. De certa forma, escreveu um livro para adultos – contraponto à divertida Vida, a escrachada, sincera e meio adolescente confissão pública de Keith Richards. 

Boa parte da biografia não autorizada de Mick Jagger joga luz sobre a trajetória dos Stones até a década de 1980. Quem gosta de história da cultura não perde tempo ao ler esses capítulos, pois o período fornece boas pistas sobre a formação da indústria que enriqueceu Jagger & Richards, vindo a culminar na roda da fortuna que alimenta Madonna, U2 e Lady Gaga.

Não é novidade que jogadas marqueteiras construíram a lucrativa imagem dos Stones como antibeatles rebeldes. Nos anos 1960/1970, juventude, drogas e contestação se tornaram sinônimos. Os Stones souberam, propositalmente, ser o símbolo disso. Mas, segundo Norman, seu biografado pouco se encaixa nessa persona, embora tenha aprendido a manipulá-la. Algumas daquelas armações chegam a soar ingênuas nestes nossos tempos de linchamento virtual. 

Boa parte dessa performance se deve a gente como o empresário Andrew Loog Oldham, jovem como os roqueiros, expert em aproveitar escândalos e flertes com a barra-pesada para “agregar valor” à banda. Porém, Philip Norman pondera: nem tudo era farra. Em certos momentos, a cultura incomodou o poder – para valer.

O autor esmiuçou fatos que levaram à prisão de Mick Jagger, Keith Richards e amigos por porte de drogas, nos anos 1960, oferecendo indícios convincentes de que a batida policial fora armada pelo sistema. Leia-se: por um “amigo” infiltrado na casa de praia de Richards por articulações envolvendo o MI5, o serviço de segurança inglês, e o FBI. Naqueles tempos, roqueiros podiam ser subversivos. Tão perigosos quanto comunistas e militantes dos direitos civis... 

Harém Norman deixa claro: antes de tudo, os Stones eram músicos de primeira, discípulos aplicados do R & B. Seu livro não alivia Mick Jagger. Enumera papelões – para não dizer cafajestadas – desse conquistador compulsivo, sobretudo com Jerry Hall e Marsha Hunt, que lhe deram cinco dos sete filhos. Criado em bom e velho lar de classe média britânico, o cantor é autêntico sir, pelo menos quando se trata da própria prole. Não dá mole para os herdeiros.

Se Norman nos apresenta um homem complexo, sensível, afetivo e sagaz, também nos revela alguém ambicioso, meio cínico e esnobe, sobretudo na juventude. Porém, defende Jagger em episódios polêmicos, contaminados por fofocas. Garante que ele se portou dignamente no Festival de Altamont, na Califórnia, quando um fã morreu esfaqueado pelos Hell’s Angels. Desmonta teorias da conspiração sobre a tragédia de Brian Jones e nega, com argumentos, que Jagger tenha covardemente defenestrado o frágil amigo da banda.

Em 2013, o astro entrará para a turma dos setentões bem resolvidos. Já se vão décadas desde que Mick trocou o rebelde pop inventado por Andrew Loog Oldham pelo cidadão “autocontrolado, calculista e conformista”, nas palavras de seu biógrafo. Atualmente, ele comemora o cinquentenário dos Rolling Stones rebolando no palco, cobrando preços salgados pela nova turnê e atraindo o público com os clássicos de sempre, por mais que surja uma ou outra nova canção.

Os Stones são profissionais, aprenderam o jogo. E sabem, como ninguém, lucrar com a própria lenda.

MICK JAGGER
• De Philip Norman
• Companhia das Letras, 619 páginas, R$ 49,50  



OS JOVENS

A memorabília de Mick Jagger, Keith Richards (foto) e cia. é mercado fértil na festa de 50 anos do grupo de rock mais famoso do mundo. Early Stones (Editora Planeta, R$ 79,90), com fotografias do início da carreira feitas por Michael Cooper, traz imagens dos Rolling Stones entre 1963 e 1973. Os depoimentos vêm de Richards (“Michael captou o espírito e a essência de como a banda chegou a ser o que é”); de Ian Stewart, o amigo que acompanhou o grupo por décadas; e de Anita Pallenberg e Marianne Faithfull – musas de Jagger e Richards nos anos 1960/1970.

A cultura que a cidade merece - JOÃO PAULO‏

JOÃO PAULO 

Estadode Minas : 01/12/2012 
Passada a eleição municipal, já começam acordos e negociações políticas para a montagem das equipes de gestão. Em Belo Horizonte, a cultura merece atenção destacada. Durante a primeira gestão de Márcio Lacerda, surgiram de várias frentes do movimento cultural posturas críticas que se articularam em demandas variadas, da continuidade dos projetos históricos da cidade, como o FIT e FAN, à crítica à regulamentação dos espaços públicos e sua entrega aos interesses da iniciativa privada.

O movimento do setor teve expressão, vocalização e capacidade de organização, gerando ações políticas que se traduziram em bandeiras eleitorais que propunham mudança. A vitória do candidato do PSB é um fato que reforça a aprovação do projeto em andamento, mas que não dissolve o sentido e a oportunidade das manifestações democráticas. Talvez por isso o setor cultural se torne cruzamento ainda mais engarrafado que as ruas da cidade. 

Há um compromisso delicado em jogo, que se traduz no respeito às determinações da democracia. Não se trata de processo fácil: a mesma democracia que supõe o respeito às regras e à vontade da maioria preconiza o direito à discordância e ao conflito político, o que faz parte do mesmo jogo. Há o polo da concordância e as margens do enfrentamento. 

A cultura assumiu de forma desabrida, por meio de seus setores organizados, a postura de oposição. Agora, tem o compromisso com a continuidade da defesa de seus projetos. Por outro lado, o Executivo municipal precisa ser articulado o suficiente para governar para todos, mesmo num terreno de nítido partidarismo ideológico.

Em outras palavras, o atual cenário que se arma, tanto para a administração municipal quanto para os militantes das organizações culturais, pode ser traduzido numa relação de complementaridade entre o que é universal – o horizonte da lei – e o que é resultado de conflitos – a franja do conflito. De um lado os laços republicanos, que balizam o ambiente comum; de outro a liberdade criativa da democracia, que aponta a flexibilidade que incorpore a divergência e o dinamismo da vida.

Cidadania e justiça 

Mais que desenhar em baixo relevo projetos e programas sobre o mapa das ruas, trata-se de recolocar em cena algumas operações que vêm sendo construídas ao longo dos anos. São balizas que apontam tanto elementos ligados ao financiamento quanto instrumentos de participação e controle social. Além disso, trata-se de pensar a política cultural a partir de dois grandes vetores: cidadania e justiça. 

As ideias que se seguem fazem parte de um projeto que foi sendo urdido coletivamente ao longo das últimas décadas no Brasil e no mundo. Sem vínculo com ideologias ou partidos, são fruto de práticas experimentadas e criticadas socialmente, de propostas inventadas com o objetivo de ampliar a participação do setor na vida da sociedade, de priorizar instrumentos capazes de descentralizar a criação, produção e fruição.

Durante muito tempo, a cultura foi vista como área marginal, acessória, voltada para o mundo da arte e do espetáculo, e, em menor escala, do compromisso com a manutenção de equipamentos como orquestras, teatros e companhias de dança. Cabia ao setor oferecer programações populares ao ar livre e óperas em teatros inacessíveis à maioria da população. Nessa lógica, democratizar era pôr artistas em caminhões e palcos improvisados.

A relação com o setor privado foi construída a partir da absoluta submissão. O setor público retirou seus investimentos, depositou a responsabilidade nas leis de incentivo e fez das empresas gestoras intelectuais da cultura. Elas decidiam o que era importante financiar (com dinheiro público), tendo como grande preocupação a valorização de suas marcas. O panteão empresarial que cerca a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, é um exemplo perverso desse princípio de inversão, que pode vir a ser copiado no chamado “corredor cultural” no Centro de BH.

O próprio setor público se retirou do financiamento de suas responsabilidades, fazendo das estatais agentes de sustentação de seus projetos – da montagem de espetáculos à manutenção de teatros, do palco à higiene dos banheiros. De um tempo para cá, leis de incentivo, institutos culturais das grandes empresas e diretorias de marketing passaram a definir, pela negativa, o que é cultura no Brasil. Observou-se a concentração cada vez maior nos grandes centros e o reforço de produtos que seriam facilmente sustentados pelo mercado. O setor público, além de deseducar os patrocinadores, reforçou a estratégia de exclusão.

Outros rumos 


Todas as tentativas de vencer essa lógica por dentro da própria estrutura de poder se mostraram ineficazes. Mesmo instrumentos como os fundos de cultura, que financiam teoricamente projetos menos atraentes sob o aspecto do marketing, acabaram por reproduzir a mesma tendência. Os fundos quase sempre são alternativa marginal, com poucos recursos e a tendência perversa de tratar pobremente o que considera arte de pobre. Basta ver os valores alocados pelas diversas instâncias de governo nas modalidades de mecenato e no fundo.

Por isso, os eixos que devem dirigir as políticas culturais precisam recuperar a dimensão política do setor. É o que pode ser chamado de cidadania cultural. A noção de cidadania, aparentemente clara quando se trata de políticas públicas como saúde, educação e moradia, parece estranha ao setor cultural. Se a cidadania for compreendida como a capacidade de ação autônoma sobre o mundo, nada mais importante que a cultura. É por meio dela que a consciência emerge e se fortalece, se a cidadania é real, ou se obscurece e aliena, se a ação de cidadania não se completa. 

A cidadania cultural supõe, obrigatoriamente, alargar os campos de participação popular em todas as fases do processo de produção e distribuição de cultura. Trata-se de um processo que amplia a participação do cidadão na definição dos rumos, na criação de projetos, na valorização da diversidade, na convivência com o novo, na abertura ao experimentalismo. A gestão voltada para a cidadania tira a cultura do fim da fila e da rabeira do processo para considerá-la como insumo vital. A cultura não é resultado a que se assiste passivamente, é construção vivida no embate das consciências e sensibilidades.

A política cultural cidadã descentraliza, muda padrões de financiamento, responsabiliza o Estado e os criadores pela gestão, problematiza a cidade, investe onde o dinheiro não chega, dá visibilidade ao que o mercado esconde, aposta na diferença. Dito de outra maneira, dá poder ao setor e o distribui entre os cidadãos. 

O segundo vetor é o da justiça. Em nenhum outro campo da atividade humana a injustiça é tão evidente quanto na cultura. Uma política justa incide igualmente sobre toda a cadeia do setor. É na forma de incentivar a cultura da violência, do consumismo, da alienação e do preconceito que se evidencia o que vem sendo feito no Brasil. A cultura tem se tornado signo de exclusão, concentração e nivelamento. Compreender a dimensão de justiça do setor vai alterar todo o padrão vigente no país, deslocando o eixo da fruição para o da produção.

Vão nessa linha projetos como os pontos de cultura, a valorização da cultura popular e até a democratização da erudição (há uma cultura que é patrimônio universal e vedada ao cidadão comum). Outros elementos que reforçam essa visão são as manifestações políticas que ganham dimensão por meio da arte, como os blocos de carnaval, as grandes apresentações de bandas e grupos de teatro e o Duelo de MCs. Esses eventos mesclam a espontaneidade com a crítica e o convite a ocupar a cidade. Nessa hora, o setor cultural público pode ajudar muito: é só não atrapalhar.

Belo Horizonte vai receber as propostas para a área cultural com muita crítica. Por enquanto, essa é a única notícia boa.



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